segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A primeira vez a gente nunca esquece

Segundo fontes confiáveis, ressonância magnética é sexy. Como eu já o fiz com a Fernanda[1] e depois com Leandro, sou testemunho. (Se calhar também devo ser bi-sexual e não sabia).

A primeira vez foram duas horas de puro masoquismo, deitado de costas, braços presos acima da cabeça e a Fernanda mandando vir com suas vibrações. A segunda vez foi no Leandro. Vapt e vupt. Entrei e sai em 30 minutos. Sem graça!

Falta só mais um exame, eco cardiograma, e poucos dias para o primeiro dia do resto da minha vida. No dia 2 de outubro retorno à estrada que escolhi 73 anos atrás. Neste dia farei cirurgia na Santa Casa para remoção do tumor. Estou pronto!

A sala de espera

As últimas sessões de radioterapia foram muito difíceis e dolorosas. Aquilo foi muito agressivo física e mentalmente. Em compensação, após 28 dias de frequência da sala de espera da radioterapia, nasceu a Turma do Fundão: Delfino Nunes Pereira, Luiz Antônio da Silva Laura, Cilas Carvalho da Costa, Sebastião Remualdo (não está na foto),  e eu. Passamos o tempo de espera filosofando, trocando informações sobre nós mesmos e contando piadas. Luiz foi o instigador, uma pessoa maravilhosa e sempre alegre. Criamos uma amizade que vai durar muito tempo. Cilas é o novato e ficou encarregado de levar a turma para frente com novos integrantes na medida que recebemos alta. Delfino é mineiro. Homem simples e sábio. Sebastião contava piadas que ninguém entendia– só ele, e ele se ria sozinho.

Mas, a maior descoberta científica durante estes últimas meses foi na área neurológica. Mesmo sem doutorado na matéria, tenho provas que possuímos (ou pelo menos eu possuo) mais que um cérebro. Um, aquele que é mais conhecido, fica alojado no crânio. O outro no intestino grosso. Não preciso tecer considerações sobre o que está no crânio. Agora, o cérebro alojado nas partes baixas é infernal, tem vontade própria e definitivamente falta-lhe qualquer senso de consideração ou etiqueta. Faz o que quer, onde quer, quando quer, quanto quer e na hora que muito bem entender.

Acabaram as terapias e ai aconteceu Nicaragua.

A porta da minha jaula ficou aberta e fugi. Meus amigos e amigas de CANLA[2] estavam reunidos na cidade de Managua numa Oficina sobre Mudanças Climáticas. Encontrei companheiros de lutas passadas e criei novos laços. Além do conteúdo da Oficina, que foi de altíssimo nível, guardo três imagens fortes do evento, uma quase tragicômica  e duas emocionais.

No dia 23 de dezembro de 1972 um terremoto destruiu pela segunda vez em sua história a capital da Nicarágua, e deixou mais de 10 mil mortos e 20 mil feridos. Nicaragua, além de se encontrar numa zona de risco sísmico, é uma das três países mais vulneráveis às mudanças de clima no mundo.

Agora imagina que você é sismologo e está falando sobre riscos naturais em Nicaragua para o pessoal de CANLA. Para dar um toque de realismo à sua fala você provoca um leve tremor de terra antes de terminar a palestra. Impossível né? Pois aconteceu. Eu senti. Com o Face Book aberto no celular “postei”. Ai falaram que não era tremor de terra mas sim a manutenção do elevador do hotel. Pensei “M_ _da, vou ter que desmentir no Face Book.” (Desculpem, mas m_ _da é uma palavra com a qual adquiri uma certa intimidade em 2013.) Porém, o elevador não estava em manutenção. Eram placas tectônicas se ajustando mesmo. O tremor aconteceu nas barbas do palestrante e debaixo dos meus pés.

O que eu perdi no Rio+20 ganhei em Managua.

José Mujica, Presidente de Uruguai, fez um discurso no conferência do Rio +20. Eu estava lá e perdi o discurso.  Eu estava com muita raiva porque colocaram telões gigantescos no galpão da praça de alimentação. Podia virar as costas às Imagens mas não havia como escapar do som dos discursos hipócritas dos Chefes de Estado e Governo proferindo sua adesão ao acordo sendo confeccionado no Rio Centro. Eu fazia o possível para não escutar. Não sei nem que dia nem a que horas Presidente Mujica falou. Tive que voar para Managua, um ano e meio depois, para aprender a grandeza deste homem e seu pensamento. Ofereço o seguinte link para que possam escutar um dos discursos mais lúcidos que jamais ouvi[3]. http://www.youtube.com/watch?v=R85yjxLoCXc

A Lei Luciano

No final do evento e antes que cada um pegasse o caminho de volta ao país de origem, meu amigo Luís Mariano, de Chile, nos contou a história do seu sobrinho – Luciano.

Um dia, Luciano e seus amigos decidiram limpar algumas ruas de Santiago retirando a propaganda eleitoral que permaneceu depois da eleição. Alguns cabos eleitorais dos partidos em causa não gostaram da iniciativa e tentaram intimidar os jovens. Todos fugiram mas Luciano não escapou e foi severamente violentado. Seu crânio foi esmagado e ele foi levado ao hospital em situação crítica.

Os médicos lhe deram poucas chances de sobrevida. Depois o milagre aconteceu. Manifestações de amor e apoio chegaram de toda parte num crescendo para acalentar Luciano e sua família. (Esta parte da história me tocou fundo, pois me fez pensar no amor dos meus amigos e família diante da tragédia do câncer que me ataca.)

Um ano já se passou e Luciano, com poucas sequelas, já voltou à escola.

 
Ai a família se juntou e decidiu transformar a tragédia de Luciano em algo positivo. Elaboraram um projeto  de lei proibindo os partidos políticos de colocar propaganda eleitoral nas ruas das cidades Chilenas. Muitos políticos influentes: um ex-Presidente, Senadores, Governadores e candidatos nas próximas eleições, já endossaram a proposta.

Veja uma parte da história aqui:


 

 




[1] As duas máquinas de ressonância magnética na Santa Casa de Misericórdia em São Paulo têm nomes: Fernanda e Leandro
[2] CANLA Climate Action Network Latin America
[3] As imagens e a trilha sonora foram adicionados depois. Porém, são de tudo apropriados


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