quarta-feira, 27 de março de 2013

Nunca mais


Em 1963, há 50 anos, eu trabalhava embarcado num navio de vela, justamente o maior navio de vela do mundo na sua classe – ketch. O Atlantis, seu nome, pertencia ao Instituto Oceanográfico de Woodshole. Queria muito seguir os passos do meu “Uncle Graham”, irmão do meu pai e uma grande influência na minha vida. Ele era fotografo profissional especializado em fotografias em grandes profundidades.

Ele tentou conseguir uma bolsa de estudos em Woods Hole - em vão. Depois, tentou uma colocação numa das equipes de pesquisa - em vão. Por fim, conseguiu que eu fosse aceito como membro da tripulação. Vitória! Mas, como eu não tinha experiência de marinheiro foi contratado para o único lugar que não manda em ninguém – faxineiro, garçom, lavador de louça e camareiro. Todas as tarefas mais nojentas do navio eram minhas. Em fim, estes serão objeto de futuras historias.

A pesar do trabalho sujo, havia compensações e eram muitas. São as memórias mais fantásticas que tenho. Mas, como tudo isso foi há 50 anos não tenho fotografias para mostrar uma das cenas mais bonitas que já vi, uma cena que certamente não se repetirá nunca, nunca mais. Nunca! Só tenho palavras para me ajudar e uma imagem que cacei na internet.


Um dia, acordei bem cedo, antes do início do meu turno, subi ao convés e vi mar e céu fundidos. Tudo era cinza e não havia horizonte. Nunca tinha visto nada igual. Depois pisquei os olhos. Não consegui entender o que vi. Lá longe, muito longe, apareceram pontos pretos no mar. O navio estava parada e os pontos se aproximavam e cresciam em número e tamanho. Vi movimento, vi fileiras, vi desaparecer depois aparecer, vi milhares, vi baleias, tantas baleias. Passaram por nós, por mim alias, pois não havia mais ninguem ai comigo. De repente percebi que para onde olhava, de lado, para frente ou para traz, 360°, só baleias. Brincavam, saiam da água sozinhos ou em filas de três, cinco e dez. Também saiam várias filas ou mesmo tempo. O que me lembro é que fiquei paralizado e desejando que o show nunca chegasse ao fim. Mas, chegou. Hoje, 50 anos depois, não há ninguem na face da terra que vai ver coisa igual. Não tem baleias que chegam.
 
Penso que cada um de nós é a soma d´aquilo que herdou, com aquilo que adquiriu e a circunstância que vive. O céu, o mar, as baleias sou eu – até hoje.

2 comentários:

  1. Temos a obrigação e o direito de salvar as "baleias" desse Mundo que herdamos e vamos deixar aos que nos seguirem!

    ResponderExcluir
  2. O interior é tudo! O resto é apenas o brilho fingido aparência.
    Beijinhos e abraços nossos.

    ResponderExcluir