terça-feira, 7 de maio de 2013

O trem de volta


Olhar para o passado é divertido. Tem muito matéria para escolher, para, rir, chorar, admirar, sentir, ler de novo, comer de novo, cheirar de novo. Eu gosto disso. Tenho uma memória sensorial muito boa. Uma vez estava em Kyoto, Japão. A última vez que tinha visitado a cidade foi 5 anos antes. Saímos à noite com nosso guia para jantar. Entramos numa rua escura igual a muitas outras ruas escuras por ai. Restaurantes típicos e antigos nos dois lados da rua. Entramos numa, passamos por um corredor comprido e subimos um lance de escada. Lá tinha um quarto por traz das portas deslizantes de papel.
Sentamos nos tatames, coisa que hoje só faria com guindaste. Fomos em doze pessoas, mais ou menos, e para cada dois tatames, uma gueixa sorridente e simpática. Também mais ou menos por que naquela época gueixa já era uma profissão em vias de extinção. Comemos pratos desconhecidos deliciosos, bebemos muito saquê, muito saquê. Não me lembro de ter voltado ao hotel. Pode ser que nem voltei. “Who knows?” Como eu dizia, passaram cinco anos e lá estava eu de novo em Kyoto. Vamos jantar, vamos. Eu conheço um ótimo restaurante numa rua assim, assim. Nem pensei na hipótese de não achar. Fui. Entramos numa rua escura igual a muitas outras ruas escuras por ai. Restaurantes típicos e antigos nos dois lados da rua. Entramos numa, passamos por um corredor comprido e subimos um lance de escada. Consegui!
Esta história do restaurante em Quioto não estava no plano. Entrou sem ser convidada.  Faz me lembrar de uma vez em Portugal, estava em Barcelos.... “Gaines, por amor de Deus. Para de viajar...”.
Vocês percebem que não é fácil escrever esta postagem para o blog. Você pensa que controla a coisa. Mas, é a coisa que te controla.

Voltando ao ponto, hoje eu queria olhar para o futuro e o para o passado ao mesmo tempo. Pensei, pensei e pensei. Pensei por três semanas (meu raciocínio é lento). Finalmente ...achei. Ai, o único problema era escolher o ponto de partida do futuro, ou seria o ponto de chegada do passado. Sei lá. De qualquer forma estou escrevendo esta postagem em 2016. Levei três anos e meio para chegar aqui e muitas coisas aconteceram.

Parti em 2013, maio eu acho, o ano do câncer. O ano perdido. Hoje, vejo esta época com sensações mistas. Barra pesada, isso foi. Uma merda no sentido literal. Defequei muito em 2013. O desconforto, o sacrifício das terapias, o período da cirurgia, que foi muito mais rápido que imaginava, o alívio de não ter que fazer tantas viagens a São Paulo, a São Paulo desconhecido que descobri e a maior de todas as descobertas, o tsunami de amor e carinho que caiu sobre mim e me deixou prostrado.

Os últimos três anos no Brasil têm sido uma sucessão de desmandos. A eleição Presidencial foi nojenta. O único sopro de lucidez foi a campanha de Marina Silva. Perdeu, “of course”, mas está bem posicionada para uma alternância no poder em 2018. Entretanto, depois da calamidade da Copa de Mundo, as chuvas torrenciais, os desmoronamentos, os mais de mil mortos incluindo pobres, ricos e muitos turistas, a imagem sobre Brasil ficou tão estraçalhada e a pressão tão forte que não havia alternativa senão cancelar as Olimpíadas. Dirceu ainda não foi preso.

De positivo a ciência Brasileira continua desbravando novas fronteiras. E pasmo, Manoel de Barros ganhou o prêmio Nobel de Literatura. Meu favorito dele é: "Sonhar é voar fora da asa."

Portugal passou a ser a menina dos olhos da Europa. Após uma troca radical de política econômica de aperto de cinto para o crescimento lento e seguro a felicidade voltou as ruas e os portugueses  forçados a abandonar o país em busca de meios de sobrevivência já estão voltando.

Já sou bisavô.

É só. Tenho que pegar o trem de volta a 2013.

2 comentários:

  1. Curti! Gostei particularmente por causa do tom de realismo mágico do post.

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  2. Esperança e perseverança: marcas de quem constrói as bases para um futuro melhor, a partir das relações genuínas entre as pessoas. Abs. Rubens

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