sábado, 29 de junho de 2013

“Ughhhh!"

Fim de tarde de um dia espetacular. Aquele momento magico quando as cores ganham um brilho próprio. Cortamos o motor e deslizamos lenta e silenciosamente pela água preta. Arvores mortas sobem d´água e formam uma copa de galhos brancos. Não se ouve nada a não ser o leve swissssh do barco avançando.

Eis que uma, depois duas, três e de repente centenas... Olhamos para cima contra a luz e os galhos, antes brancos e nus agora estavam folhados de preto. Os biguás estavam pousando para a noite. Biguá não canta. Biguá tem um gaguejo profundo. Um gaguejo só não faz refrão, mas muitos centenas criam um cenário estranho de ror.
Mas, o inferno mesmo estava escondido abaixo da superfície da água preta. De repente um sobressalto, com a rapidez de um tiro, a água borbulha violentamente. Tem vida própria. Em seguida e com a mesma rapidez que começou, para e a água preta se espelha de novo. A saber, que poucos centímetros abaixo da superfície estavam incontáveis piranhas famintas prontos para disputar as fezes dos biguás ou quem sabe um ovinho ou um biguazinho recém-nascido que cai do ninho para as laminas afiadas das piranhas.

Um cenário verdadeiramente Dantesco e nós, num barco de alumínio entre o céu e o inferno, perdidos no Pantanal Mato Grossense, vivendo entre a vida e a morte a distância da mão estendida.  ....  Os extremos me fascinam.
E assim têm sido as últimas semanas. Surpresas malucas convivendo com o hospedeiro intestinal infernal. Lagrimas, risadas e dor de doer.
Uma manhã ensolarada, nem quente nem fria e chega um carro no portão. Digo ao vizinho que deve ser para ele. Ele se dirige ao carro e pergunta se pode ajudar. A moça diz que não que ela veio para falar com o pai dela. Eu não ouvi nada, pois tenho surdez seletiva – só escuto o que me interessa. Mas, de qualquer forma comecei a andar na direção dela – ela, minha própria filha que não tinha reconhecido. A minha linda filha que mora na linda cidade de Lisboa, veio fazer uma visita ao pai sem avisar. Se o câncer não me matar os filhos estão testando a força do meu coração.
Estou acumulando dividas impagáveis. Esta vez foram minhas sobrinhas postiças, as irmãs Fanti: Lorena, Luciana e Renata que resolveram importar a filha Rita para visitar o pai. Amo vocês.
Rita ficou duas semanas e foi embora e nada disse sobre a próxima tentativa de assassinato que me aguardava, também no portão de casa. Sempre achei que a segunda xicara de café era a melhor. Neste dia não havia de ser diferente. Estava eu na poltrona da sala com o segundo café da manhã e lendo o jornal quando ouço um bater de palmas no portão. Vi um carro e um moço. Nada me diziam. Levantei, sai e fui ver quem era. Foi ele que disse “Sou eu pai!”. Era metade do meu filho Peter. A outra metade ele perdeu e deixou em terras Lusitanas, mais precisamente 50kg. Também mora em Lisboa. Também, não avisou. Também tive um troço – quase.
Filhos! Se os tiver, toma cuidado. Crescem, mas nunca param de aprontar. Mesmo assim, entre a lenga lenga dos dias mundanos, e o perigo dos extremos, prefiro os últimos.
Desde que aprendi que tinha dado abrigo a um câncer no intestino a minha lenga lenga é composta, até agora, de duas coisas: as longas esperas entre exames e consultas e a dor lascada do maldito.  As semanas passavam de vagar, semanas de espera para iniciar a etapa dos tratamentos – radio e quimio terapia. Entretanto ainda havia mais um exame a fazer, uma ressonância magnética. Seria necessário se cirurgia houver, mas não havia pressa. Semana passada resolvi fazer o exame.
Cohece aquele número de circo “O homem bala”? Pois é mais ou menos assim:
Começa com aquela instrução que já me é bastante familiar “Tira a roupa e coloca estes dois camisolões (uma aberto para a frente e outra aberto a trás). Acho que é porque sou grande demais para uma só. Ai vou para o canhão do homem bala, deito de costas com as mãos acima do peito. A canhão é carregado com o homem bala. De repente, “Pára, para volte para trás”. O homem bala não cabia no canhão. De novo, esta vez com os braços acima da cabeça. Lentamente o homem bala é enfiado no canhão. Entrou. Ai eu fiz a besteira de perguntar quanto tempo o exame levava?  “Oh, uma hora e meia, mais ou menos.” Ninguém merece!
Depois colocaram os protetores de ouvido e começa a festa: Clack..........clack.........clack......clkclkclkclkclkclk clkclkclkclkclkclk clkclkclkclkclkclk clkclkclkclkclkclk clkclkclkclkclkclk clkclkclkclkclkclk clkclkclkclkclkclk clkclkclkclkclkclk. Sequência repetida com frequências diferentes até meus braços ficarem sem sentido, minhas costas moídas e meu cérebro fundido.
Tiraram o homem bala do canhão. Não conseguiu mexer e para falar, só saia “Ughhhh! Ughhhh! Ughhhh!”
Como disse, viver é viver os extremos.


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