Fim de tarde de um dia espetacular. Aquele momento magico
quando as cores ganham um brilho próprio. Cortamos o motor e deslizamos lenta e
silenciosamente pela água preta. Arvores mortas sobem d´água e formam uma copa
de galhos brancos. Não se ouve nada a não ser o leve swissssh do barco
avançando.
Eis que uma, depois duas, três e de repente centenas...
Olhamos para cima contra a luz e os galhos, antes brancos e nus agora estavam
folhados de preto. Os biguás estavam pousando para a noite. Biguá não canta. Biguá
tem um gaguejo profundo. Um gaguejo só não faz refrão, mas muitos centenas criam
um cenário estranho de ror.
Mas, o inferno mesmo estava escondido abaixo da superfície
da água preta. De repente um sobressalto, com a rapidez de um tiro, a água
borbulha violentamente. Tem vida própria. Em seguida e com a mesma rapidez que
começou, para e a água preta se espelha de novo. A saber, que poucos
centímetros abaixo da superfície estavam incontáveis piranhas famintas prontos
para disputar as fezes dos biguás ou quem sabe um ovinho ou um biguazinho recém-nascido
que cai do ninho para as laminas afiadas das piranhas.
Um cenário verdadeiramente Dantesco e nós, num barco de
alumínio entre o céu e o inferno, perdidos no Pantanal Mato Grossense, vivendo
entre a vida e a morte a distância da mão estendida. .... Os
extremos me fascinam.
E assim têm sido as últimas semanas. Surpresas malucas
convivendo com o hospedeiro intestinal infernal. Lagrimas, risadas e dor de
doer.
Uma manhã ensolarada, nem quente nem fria e chega um carro
no portão. Digo ao vizinho que deve ser para ele. Ele se dirige ao carro e
pergunta se pode ajudar. A moça diz que não que ela veio para falar com o pai
dela. Eu não ouvi nada, pois tenho surdez seletiva – só escuto o que me
interessa. Mas, de qualquer forma comecei a andar na direção dela – ela, minha
própria filha que não tinha reconhecido. A minha linda filha que mora na linda
cidade de Lisboa, veio fazer uma visita ao pai sem avisar. Se o câncer não me
matar os filhos estão testando a força do meu coração.
Estou acumulando dividas impagáveis. Esta vez foram minhas
sobrinhas postiças, as irmãs Fanti: Lorena, Luciana e Renata que resolveram
importar a filha Rita para visitar o pai. Amo vocês.
Rita ficou duas semanas e foi embora e nada disse sobre a
próxima tentativa de assassinato que me aguardava, também no portão de casa.
Sempre achei que a segunda xicara de café era a melhor. Neste dia não havia de
ser diferente. Estava eu na poltrona da sala com o segundo café da manhã e
lendo o jornal quando ouço um bater de palmas no portão. Vi um carro e um moço.
Nada me diziam. Levantei, sai e fui ver quem era. Foi ele que disse “Sou eu
pai!”. Era metade do meu filho Peter. A outra metade ele perdeu e deixou em
terras Lusitanas, mais precisamente 50kg. Também mora em Lisboa. Também, não
avisou. Também tive um troço – quase.
Filhos! Se os tiver, toma cuidado. Crescem, mas nunca param
de aprontar. Mesmo assim, entre a lenga lenga dos dias mundanos, e o perigo dos
extremos, prefiro os últimos.
Desde que aprendi que tinha dado abrigo a um câncer no
intestino a minha lenga lenga é composta, até agora, de duas coisas: as longas
esperas entre exames e consultas e a dor lascada do maldito. As semanas passavam de vagar, semanas de
espera para iniciar a etapa dos tratamentos – radio e quimio terapia.
Entretanto ainda havia mais um exame a fazer, uma ressonância magnética. Seria
necessário se cirurgia houver, mas não havia pressa. Semana passada resolvi
fazer o exame.
Começa com aquela instrução que já me é bastante familiar “Tira
a roupa e coloca estes dois camisolões (uma aberto para a frente e outra aberto
a trás). Acho que é porque sou grande demais para uma só. Ai vou para o canhão
do homem bala, deito de costas com as mãos acima do peito. A canhão é carregado
com o homem bala. De repente, “Pára, para volte para trás”. O homem bala não
cabia no canhão. De novo, esta vez com os braços acima da cabeça. Lentamente o
homem bala é enfiado no canhão. Entrou. Ai eu fiz a besteira de perguntar quanto
tempo o exame levava? “Oh, uma hora e
meia, mais ou menos.” Ninguém merece!
Depois colocaram os protetores de ouvido e começa a festa:
Clack..........clack.........clack......clkclkclkclkclkclk clkclkclkclkclkclk clkclkclkclkclkclk
clkclkclkclkclkclk clkclkclkclkclkclk clkclkclkclkclkclk clkclkclkclkclkclk clkclkclkclkclkclk.
Sequência repetida com frequências diferentes até meus braços ficarem sem
sentido, minhas costas moídas e meu cérebro fundido.
Tiraram o homem bala do canhão. Não conseguiu mexer e para falar,
só saia “Ughhhh! Ughhhh! Ughhhh!”
Como disse, viver é viver os extremos.

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