Tenho
pensado muito neste incidente e particularmente no que é ser verdadeiramente
digno e humilde. Ivan Illich, radical filosofo e pensador Austríaco escreveu
sobre isso num livro que li há mais de 40 anos, O Nemesis Medical. O tema central é que sofremos mais dos
tratamentos da indústria de saúde do que das doenças propriamente ditas. Não me
cabe o papel de juíz neste caso, nem de réu. Vitima sou. Os efeitos colaterais
dos remédios, as restrições pré, durante e pós operatórias, os aparelhos
dentários e outros são exemplos óbvios desta submissão muitas vezes
involuntária e dolorosa. Sou e fui testemunho de muitas destes.
Não quero ser
mal agradecido, tenho recebido por parte dos profissionais de saúde que estão
me cuidando nesta luta contra um câncer intestinal um tratamento carinhoso e
competente. Apesar disso o sistema coloca-nos em situações no mínimo
constrangedoras.
Algumas
situações são até divertidas. O caso da minha primeira sessão de radioterapia é
uma delas. Tudo começa por uma moça linda, muito bonita mesmo (podia ser modelo),
com bata branca me chamando da sala de espera “Sr. Marrou”. Levantei e fui lá
dentro e ela aparentemente fascinada pelo estrangeiro de cabelos brancos e
olhos azuis, começou a perguntar sobre meu nome, de onde eu era e que eu falava
muito bem português. Pediu para a seguir até a sala da maquina de radioterapia.
Lá dentro havia um médico e mais uma mulher quando ela postada na minha frente
diz “Baixa a calça e a cueca.” Confesso que pensei que deve haver outra maneira
de dizer isso ao mesmo tempo que pensei que o que eu iria mostrar, ela já viu
muitas vezes. Baixei a calça e a cueca. Deitei-me na maquina e começaram a
pintar a minha bunda[i].
Ouvi um motor ligar e em seguida parar. Pediram para eu levantar e vestir. Meu
peso excedeu a capacidade do motor. A maca recusou mexer. “Vamos para uma outra
sala onde tem uma maquina maior.” A moça bonita ficou para trás.
Na segunda
sala a cena se repete. Aparentemente fascinada pelo estrangeiro de cabelos
brancos e olhos azuis perguntam sobre meu nome, de onde eu era e que eu falava
muito bem português. Pedem para entrar na sala da maquina de radioterapia. Lá
dentro havia um médico e mais uma mulher. A mulher não era aspirante a
top-model mas foi muito mais atenciosa. Ela pediu que abrisse a calça e
deitasse de bruços na maca e depois que puxasse a calça e cueca para baixo. De
novo começaram a pintar a minha bunda. Ouvi um motor ligar, a maca não se
mexeu. O motor parou. Pediram para eu levantar e vestir. Meu peso excedeu a
capacidade do motor. “Vamos para uma outra sala onde tem uma maquina maior.”
Na terceira
sala, aparentemente fascinada pelo estrangeiro de cabelos brancos e olhos azuis
começaram por perguntam sobre meu nome, de onde eu era e que eu falava muito
bem português, abri a calça, deitei de bruços, bunda exposta, pintura feita,
motor ligado e a maca mexeu.
Mas, a moça
que fiz chorar me fez pensar mais profundamente sobre o que é viver de forma
humilde e digna. Me explico melhor. Passei 30 anos da minha vida treinando
lideranças: Diretores, Gerentes, Supervisores, Chefes. Sempre que possível, tentei
ajudá-los entender a importância do apreço e respeito pelo trabalho manual, o
trabalho físico, o trabalho sujo e duro. Não fazia isso por seguir qualquer
teoria ou ideologia, mas, porque aprendi isso na vida. Aprendi que para ser um
líder é preciso conhecer e respeitar o liderado e seu trabalho. Já fiz tudo
isso. Já trabalhei no campo, no mar, em ferrovia e na cidade. Já colhi batata, milho
e maçã. Já limpei corrais, banheiros e cozinhas. Já carreguei carvão. Já fui
respeitado e já fui desprezado. Aprendi na
marra o peso que o primeiro dia de trabalho tem no início de uma carreira ou de
uma caminhada de carreiras. Já vivi tudo isso - e num momento de infelicidade consegui esquecer
a lição.
A loja de
massas Quase Pronti na Praça de Alimentação do Shopping Ibirapuera foi inaugurado
com grande sucesso na sexta-feira. Na quinta-feira fizeram um ensaio
operacional e fui convidado a ser uma das cobaias. Antes de me dirigir à caixa,
perguntei se era para fazer o teatro completo. Falaram que “Sim”. Filmadoras a
postos, celulares armados no modo câmara e lá foi eu fazer meu pedido. Embora visivelmente
nervosa com a primeira venda, a caixa estava sorridente e prestativa. Escolhi a
minha massa e o molho. Ela perguntou o que eu queria para beber. “Tem água?” perguntei.
“Sim” mas, foi logo corrigido pelo seu chefe que estava logo atrás. Ela
ofereceu suco natural. “Tem açúcar?” perguntei. Antes que ela pudesse
responder, seu chefe disse que sim, todos os sucos têm açúcar. “Sinto muito”
disse a moça, cada vez mais nervosa e desejando que essa tortura terminasse.
Neste momento, sem pensar e com toda a minha capacidade teatral falei em alto
em bom tom “Então vou comer em outro lugar!”
Pronto, a
brincadeira se transformou numa tragédia. Ela começou a chorar, disse que
queria sair d´ai, seu chefe disse que não, ela teria que ficar, eu queria me
tornar invisível. Enfim, o que era para ser um ensaio divertido se transformou
num desastre. Peguei meu prato de massa e sai da loja para comer na praça.
Pensei, “Isso
não pode ficar assim. Tenho que fazer alguma coisa.” Comi e fui procurar uma
loja de chocolates. Comprei uma caixinha de trufas. Quando voltei à loja chamei
um dos sócios, o responsável pelo treinamento da equipe e a moça da caixa. Ela
chegou cabisbaixa, olhei nos seus olhos e disse “Quero que você saiba que você não
fez nada de errado. O errado foi eu. E mais, eu não quero que esse incidente
manche a memória que você vai ter desse dia.” Ai ofereci a caixinha de
chocolates. Ela me beijou e me abraçou.
No dia
seguinte, dia de inauguração da loja, eu estava sentado na frente da loja
esperando o grande momento. Ela soube que eu estava lá e veio falar comigo.
Estava feliz e parecia que estava segurando uma risada, quando disse: “Hoje
temos ... água.”
[i] Detalhe: a pintura da bunda é a
calibração necessária para posicionar o equipamento de radioterapia
Hoje temos... muitas coisas.
ResponderExcluirObrigado Gaines.