terça-feira, 9 de abril de 2013

Dias assim, dias assado

Eu - “E ai Dr., qual vai ser a sequência do tratamento a partir de hoje?”
Dr. Rafael - “Depende...”
Eu - “O Dr. tem ideia da quanto tempo ficarei internado?”
Dr. Rafael - “Depende...”

Embora não resolve as minhas incertezas, entendo o “depende”.

Mas. se “dependesse” de mim...deixe para lá. Vocês me entendem né.
O dialogo acima aconteceu na 6ª feira passada. Tive consulta com Dr. Rafael da equipe de cirurgia. Ele me examinou (por dentro e por fora) fez o levantamento histórico etc. e tal. Falamos sobre o leque das possibilidades que vai desde inoperável até tratamento com radio e quimio terapias sem operar. Também falamos sobre os riscos associados à minha idade, sobrepeso, diabetes e hipertensão. São fatores que influem na minha capacidade de suportar uma cirurgia agressiva e na velocidade da recuperação. Na verdade isso não foi muito útil a não ser colocar todas as cartas na mesa. Mas, as minhas cartas, aquelas com que vou jogar, só após os exames.

Ele me entregou um calhamaço de requisições de exames[i] e estou correndo atrás. Muita burocracia. Mesmo assim, a “Good News” é que, com a ajuda dos filhos, estou conseguindo acelerar o processo e até o final da próxima semana devo estar com todos os resultados na minha mão. Depois, é retorno com Dr. Rafael para enterrar os “dependes”.
Descobri nestas últimas semanas que eu tenho dias assim e dias assado. Dias assim são produtivos, dias assado, nem tanto. Ai, ás vezes eu me lembro de uma frase, que não é minha, mas que guardo por mais de 40 anos. A frase tem tudo a ver com decisões, grandes e pequenas, que tomei. Tem a ver com quem eu sou. Tem a ver com a calma que tenho diante situações de conflito ou perigo. A frase é: “A morte é nosso companheiro eterno. Está sempre à nossa esquerda[ii], à distância de um braço atrás. A morte é o único conselheiro sábio de um guerreiro. Sempre que ele acha que está tudo errado e que ele vai ser aniquilado, ele pode se dirigir a sua morte e perguntar se assim seja. Sua morte lhe dirá que ele está enganado, e que nada tem importância a não ser o toque da morte. Sua morte lhe dirá, “Eu ainda não te toquei.[iii]” ”

Mas, não pense que o seu guerreiro septuagenário seja um ser sem medo. Me lembro até hoje de uma aventura que tive com 18 anos. Nas minhas férias escolares trabalhava para poupar dinheiro para a faculdade. Sempre tive trabalhos diferentes e desafiantes. Neste ano trabalhava como fogueiro numa ferrovia antiga. Abastecia a maquina de vapor com carvão e levávamos turistas até o topo de Monte Washington, a montanha mais alta na região este dos Estados Unidos. Situado no meio dos 3.000km² da Floresta Nacional de Montanha Branca a base da ferrovia estava muitos km da civilização.
Regra de ouro nº 1, nunca entrar numa floresta sozinho; Regra de ouro nº 2, nunca entrar numa floresta sem avisar a rota que vai tomar e a hora que vai voltar. Já adivinhou, “of course.” Um belo dia esse idiota que vos escreve, resolveu sozinho procurar a lagoa de uma cachoeira para tomar banho e sem avisar ninguém. Conhecia o caminho e que a cachoeira estava mais ou menos uma hora do nosso acampamento. Foi! Nunca tinha cruzado com um urso preto a não ser no zoológico, mas sabia que tinha por lá. Ai, não deu outro. Quando já tinha andado cerca de meia hora ouvi o bramir que me gelou. Não deu outro, me desatei a correr e para dizer a verdade nem sei se sujei a calça ou não.

Era um dia assado.



[i] Tomografia de Abdômen Superior; Tomografia de Tórax Mediastino; Tomografia de Pelve; 8 Análises de Sangue; Eletrocardiograma; Radiografia de Tórax e Consulta com Oncologista;
[ii] Esquerda em Latin é Sinister
[iii] Carlos Castañeda, Viagem a Ixtlan

Um comentário:

  1. Gaines, "Esta vida é uma estranha hospedaria, de onde se parte, quase sempre às tontas.
    Pois as nossas malas nunca estão prontas e nossa conta nunca está em dia." Mario Quintana Esta é uma das frases que recordo em situações difíceis, mas, sei que a marcha continua sempre em frente. As vezes não enxergamos a estrada, está escuro, mas faz a curva e vê a saída! Um beijo no coração. Te escrevo de Coimbra.

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