quinta-feira, 4 de abril de 2013

O relógio parou

Quem acha que o relógio avança sempre na mesma batida está redondamente enganado. O relógio, quer seja de pulso, de parede, de pilha, solar ou atômico não tem batida regular. O relógio tem coração, alma e emoção. O relógio é tão impiedoso e cruel quanto é generoso e amoroso.

Eu sei. Já vi o tempo passar e escapar com uma velocidade alucinante como, por exemplo cada vez que olho para as minhas lindas netas. Cresceram do tamanho de um buquê de flores para um raio de sol. É de partir o meu coração. E também já vi o relógio andar de vagar quase parando, pior que esperar para o Papai Noel chegar com os presentes.

O que mais queria neste instante é que o meu tratamento de câncer começasse e que a cirurgia já fizesse parte da história. Mas, não é assim. Arrrrgh!

Outro momento que durou uma eternidade aconteceu em 1963. Nesta época não havia Laptop, PC, Smartphones e coisas tais. Steve Jobs tinha 8 anos, eu, com 23 estava estudando no Massachusetts Institute of Technology – MIT. Era um estudante pobre, pobre mesmo. Tinha ganho uma bolsa que pagava a matricula, mas dinheiro para me hospedar e comer, faltava.

A solução me levou de volta ao Atlantis, o navio da história “Nunca Mais”. O Woods Hole Oceanographic Institute tinha decidido vendê-lo. Meu amigo Jerry, o contramestre (Botswain em inglês) estava vivendo a bordo do navio num estaleiro debaixo da ponte do Charles River em Boston, Massachusetts. Ele fazia de guarda e cuidava da manutenção das bombas. Mas Jerry não tinha ninguém para o render no final de semana. Por todos os efeitos estava preso no Atlantis. Ai, eu foi falar com a Direção de Woods Hole e me ofereci para render Jerry nos finais de semana em troca de poder morar a bordo de graça enquanto estudava na Universidade. Aceitaram. Agora tinha matricula e moradia. Faltava comida. A solução morava ao lado. Sempre que um novo navio entrava no estaleiro, Jerry e eu fazíamos de comitê de recepção para os tripulantes e acabávamos sendo convidados para dividir o rango com eles. E assim foi.

Entretanto, no meu segundo ano em Woods Hole, durante uma emocionante e perigosíssimo viagem de pesquisa do Atlantis II[i], sucessor do Atlantis, conheci uma linda portuguesa num baile de carnaval em Ponta Delgada nos Açores. Foi flechado com “Love at first sight”. Voltei aos States, entrei no MIT, morando abordo do navio mas, sem conseguir tirar a portuguesa da minha cabeça.

Ai, numa noite de chuva, sozinho no navio (Jerry estava fazendo a sua ronda dos bares) o amor, o aperto do coração e a saudade me venceram. Escrevi uma carta, em francês, convidando a Maria Arnaldina Reis Correia da Silva para casar comigo.

O relógio parou!



[i] Prometo contar esta história em uma próxima postagem

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