sábado, 13 de abril de 2013

Sexy legs


Dois furos (um em cada braço), sete copos de água, duas radiografias, cinco amostras de sangue e três tomografias com vários líquidos injetados pela boca, pela veia e por um outro lugar. Tudo isso no dia chamado “Thank God it´s Friday”.
Apesar das violências, pela primeira vez desde que me disseram que tinha câncer, fiquei com a sensação de movimento. Até ai achava que estava atolado ou fazendo o Moon Walk de Michael Jackson. Alias, além do nosso talento musical, Michael e eu somos unidos por outra coisa  – vitiligo.

Em uma semana terei os resultados em mãos e retornarei aos médicos para saber qual vai ser o tratamento.
Mas são os pequenos dramas, cômicos e trágicos, que fazem a vida vivível. A preparação para a tomografia incluía a ingestão de sete copos de água com intervalos de cinco minutos. Estava sentado na sala de espera jogando no celular um daqueles joguinhos idiotas que criam dependência neurológica para fazer passar o tempo. Ai levantava para beber água no bebedouro na sala ao lado. Sempre que chegava lá tinha um homem apoiado na mesa com as mãos na cabeça e uma garrafa de um liquido amarelo que eu reconhecia e me fazia comiserar com seu aparente desespero. Era a mesma mistura de limpeza intestinal que tinha tomada poucas semanas antes da preparação para a minha colonoscopia. Simplesmente horrível. Ugghh! Queria falar com ele mas também não queria invadir sua intimidade. Fiquei quieto e bebi meus sete copos de água pensando “Tem coisa pior”.

Na mesa de tomografia, que mais parece uma daquelas canhões de lançamento de homem bala, outra drama. A técnica de tomografia e seu assistente me orientavam deitar na mesa. Eu com uma bata azul aberta na frente e nada por baixo tentando seguir suas instruções de posicionamento segurando na bata para manter a mínima de dignidade e não soltar o liquido que tinha sido injetada no “outro lugar” que mencionei na primeira frase desta cronica. A certa altura, depois de virar de lado, subir e descer na mesa, pensei “F_ _ _-se”. Se vão me ver por dentro, não tenho mais nada para esconder.
Ai chegou a vez da radiografia do tórax. Entrei na sala com a técnica de raio x e ela pediu para eu baixar os suspensórios e tirar a camisa. Me posicionou encostado no painel, queixo apoiado e com os braços apoiados nas ancas. “Inspira e segura o ar” disse ela. Claque e pronto! Faltava fazer o raio x de perfil. De novo me posicionou na frente do painel, esta vez de lado, e disse para eu colocar os braços ao alto. Eu falei, “Se eu fizer isso as calças vão cair.” Mas para não criar caso, puxei-as acima do umbigo e pus os braços ao alto. Ai ela disse de novo “Inspira e segura o ar”. Duas coisas aconteceram ao mesmo tempo: senti ar fresco nas pernas e ouvi ela dizer “Aii, você avisou, né?”

Sexy legs!

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